Sonhos e Sonhos

Desenho no paint de um corredor qualquer de uma cena qualquer de um sonho qualquer.

Não importa muito se a realidade estiver distorcida, se o mundo estiver roxo ou se as pessoas estiverem agindo diferente. Quando sonho, parece que vivi aquilo a minha vida inteira. Quando acordo, parece que vim de uma outra realidade, que vivi toda uma vida para então chegar no momento do meu desepertar.

Não sinto o que está à minha volta. Sinto o que vivi dentro de meu sonho. Sinto uma falta devastadora e imediata das pessoas e dos lugares e dos sentimentos que tive, das coisas que vivi. É como partir depois de várias semanas viajando, é como voltar à rotina após meses de férias, como se despedir depois de um longo dia juntos.

Sinto que minha mente não funciona bem. Não é um “não funciona como antes”, é um… “ela nunca deveria funcionar assim, e acho que nunca funcionou exatamente bem”. Sinto um constante desejo forte de me entorpecer e desaparecer da realidade, é quase uma necessidade. Talvez por isso eu tenha tantomedo de sequer experimentar qualquer tipo de entorpecente, não sei o que poderia acontecer, os remédios que já tomei já me deixam com saudade.

Sei que por vezes desperto não querendo estar aqui, nesse mundo, e sim em outro, onde as coisas sejam diferentes, onde tudo funcione de outro jeito. O tanto de medo que tenho de pesadelos, eu tenho de vontade de sonhar mais, por mais instáveis que minha vida onírica possa também ser. Lá eu tenho sentimentos, as coisas acontecem, é tudo mais imprevisível, tudo é digno de ser gravado e registrado. Dias comuns me entediam e me entristecem.

“Fui até a loja pois senti tédio e solidão” é uma frase que eu gostaria de estar falando bem menos do que tenho falado ultimamente. Não gostaria que a introdução de Lose Yourself to Dance e o solo de I Ran (So Far Away) fossem o que mais me fizessem viajar acordada de olhos fechados, nem que qualquer cidade iluminada à noite ou uma luz roxa neon que possa lembrar qualquer temática cyberpunk fossem o que mais me fizessem imaginar uma realidade alternativa onde eu pudesse ter uma vida emocionante.

A questão é que eu tô entediada.

Eu amo as pessoas que tenho, e não gostaria de sentir que elas podem se sentir menos por eu querer mais. Eu não amo menos por querer mais, por querer amar mais, por querer me divertir mais, por querer abraçar mais. Eu reconheço as presenças, mesmo que eu sinta que não tenho ninguém. Eu aprecio as amizades mesmo que eu sinta que não tenho amizades. Eu sinto os abraços mesmo que eu sinta como se eu nunca tivesse sido abraçada na vida.

Eu só sonho demais, dormindo e acordada, e os dois tipos de sonho parecem se mesclar muitas vezes. Eu tenho sonhos com o que sonho para mim, e sonho para mim com o que sonhei na noite anterior, mas nada parece ser o suficiente, nunca. Duas semanas sem remédio e eu já sinto como se nada valesse a pena meu tempo, como se nenhum sentimento bom que eu possa ter, ou que possam tentar me fazer ter, é bom o suficiente, porque eu quero mais.

O vazio crônico e o medo de abandono já viraram rotina. A solidão virou rotina. Os pensamentos confusos e intrusivos já viraram rotina. Nem a minha desgraça me tira mais o tédio. Sentir que minha vida é miserável não me faz mais chorar, é só… como é. E, como sempre sinto que preciso explicar, não é uma misérie financeira ou de bens, é de… sentido e de sentimentos e de pessoas. Acho que eu tenho mais conexão com os personagens que crio do que com as pessoas com quem troco comentários e reações nas redes. Eu nem tento mais.

Parece que quem já se foi mas não foi continua sendo a prioridade do meu cérebro. Não me importo com quem já foi de verdade, eu me lembro às vezes, mas não sinto falta. Eu sinto falta de quem está por aqui, mas que eu sinto que não está de verdade. Quem eu tenho algum contato, mas… é como se não tivesse. Quem é amigo na internet, mas não é amigo. Com quem eu falo, mas nada é realmente dito. Quem está logo ali, mas eu não posso ir, e não é a pandemia o motivo. Para quem eu posso ligar de madrugada chorando, mas não é conveniente, não vai dar em nada e vai ser estranho, e depois nunca mais nos falaríamos de novo mesmo.

Não importa de quem eu sinta falta, não dá. Não importa com quem eu queira construir algo novo e diferente, não vai rolar. E “o jeito é eu trabalhar e cultivar o que eu tenho”, mas eu tento, eu realmente tento, mas parece que não funciona, que sou incapaz, eu tentando ou não. O que toco vira poeira e o que vejo de longe se apaga ou fica embaçado, e o que sonho me faz sentir como se eu fosse um desenho de lápis incorporado, se contorcendo e tentando sair de sua página até perder o fôlego e desistir.

Eu quero sair, mas não consigo, e não sei aonde eu iria mesmo também.

Ouvir mil vezes a mesma música me acalma, mas parece que nenhuma versão é a melhor. Assistir de novo as mesmas séries e os mesmos filmes é um alívio, nada vai me surpreender, assim como parece que é com as coisas acontecem na vida. Estou cansada de escrever frases longas para as pessoas demorarem a entender, estou cansada de fingir que estou fingindo que estou bem, e estou definitivamente cansada de tentar evitar demonstrar às pessoas que sinto ou penso para evitar que se afastem ou sintam pena ou enjoem de mim.

Acho que eu mesma já enjoei de mim, de novo. Não aguento mais, mas estou bem, eu acho.

Ensino, música, escrita, jogos, bissexualidade, idiomas e eternas viagens. Falo sobre tudo isso e também sobre transtornos psicológicos.

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Zoe Miranda

Ensino, música, escrita, jogos, bissexualidade, idiomas e eternas viagens. Falo sobre tudo isso e também sobre transtornos psicológicos.