Por favor, o que é responsabilidade afetiva?

(não se trata de um texto didático ou informativo)

(Atenção: esse texto foi escrito antes da autora se descobrir uma pessoa trans não-binária. Portanto, a linguagem, termos e assuntos escolhidos podem não mais refletir a realidade da pessoa que escreveu. Para mais informações, leia o texto “Às vezes parece que é outra coisa, mas não é”: https://link.medium.com/9cZzyO8ow1)

Parece existir apenas, atualmente, uma ligação fraca entre meu consciente e ideias básicas como ética, responsabilidade, empatia e “pensamentos proibidos” (em relação a outras pessoas).

E o resultado disso tudo são comportamentos autossabotadores, explosivos, destrutivos e tóxicos; níveis muito baixos de empatia e muitos casos de irresponsabilidade emocional.

Não é como se eu não gostasse ou não me importasse mais com as pessoas. Não é como se eu não as amasse mais. O que acontece é que não consigo mais ignorar, relevar ou fingir quando estou descontente, decepcionado ou de alguma forma com uma visão negativa delas ou de nossa relação. E principalmente por eu nem sempre aceitar o que estou enxergando (ou o que sempre enxerguei, mas não aceitava), isso acaba tornando minhas relações caóticas e frustrantes.

Diferentemente de discussões e brigas que acontecem com as pessoas e que já aconteceram um bocado comigo, até mesmo recentemente, eu simplesmente não quero saber qual é o outro lado da moeda. Não tenho interesse em saber explicação daquilo que está me causando mal. Só quero que aquilo acabe, suma e não volte mais. E na total incapacidade de controlar mentes, acabo trabalhando (conscientemente ou não) para que as próprias pessoas se vão, sumam e não volte mais.

Na terapia isso é levantado como “demolir o que me faz mal para construir tudo do zero", porém eu não sinto isso. Não sinto que sou ou serei capaz de construir algo “depois disso". Não por me achar incapaz de construir novas amizades (algo que tenho conseguido fazer muito bem, felizmente), mas por acreditar que o problema não está no outro.

Quanto à própria existência, só consigo atribui-la ao sofrimento e sustentabilidade emocionante das situações problemáticas. Nunca seremos plenos, nunca teremos paz eterna. E isso reflete na forma como encaro a vida, e principalmente como encaro a mim mesmo. Eu não me respeito nem um pouco.

Sou lido como um homem cis por praticamente todas as pessoas que conheço, e minha resposta a isso é aceitar que é assim e que não sou capaz de mudar isso sem mudar quem eu sou.

Constantemente durante conversas sinto (e às vezes tenho confirmações) que as pessoas criam ou prolongam discussões para me provar errado pois elas têm a visão de que não tolero nunca estar errado (e não vou nem entrar no mérito disso estar certo ou não)

E minha resposta a isso é me calar em situações onde somente sinto vontade de falar o que penso e o que acredito e lutar por isso até o fim, até de fato me provarem errado e eu poder mudar.

Meus colegas de trabalho se reúnem em grupo para criticar meu trabalho profissional e minhas lutas pessoais e, ao saber disso, mesmo com pessoas que realmente importam me mostrando e provando que pelo menos meu trabalho é excelente, minha resposta automática é me odiar.

E como todos os terapeutas ever, incluso a atual, já disseram insistentemente… “como você vai se relacionar bem com as pessoas se você não se relaciona bem consigo mesmo?”

O lance é que eu não vejo mais sentido em manter relações com o que me prende no que me faz mal. Demonstro com frequência ter medo de mudar porque toda mudança que imagino é uma mudança que não quero (nem preciso). E é difícil perceber que eu já estou mudando, porque não é uma mudança que escolhi.

Monogamia, mentiras, falsidades, fofocas, birras, joguinhos, “vou ignorar pra chamar atenção”, “vou falar ‘militou’ pra fazer chacota”, distorções ou desfoques dos temas, entre outras coisas pequenas que me irritam em relações… eu não estou nem mais num nível de “não tenho mais paciência". É só “eu não consigo existir próximo a isso, não consigo respirar isso e continuar vivendo".

E isso gera intolerância.

Não como a dos propagadores de ódio (minha autoestima não está tão baixa para achar que estou agindo assim), mas ainda é uma intolerância que afasta e machuca.

Fragilizado emocionalmente por motivos financeiros, políticos e afetivos há vários meses, eu não pareço aceitar isso. Como as pessoas que, já velhas, insistem no doce tendo diabete, fumam sabendo que não devem e só se sabotam até não conseguirem mais, por não se aceitarem. E, céus, como eu não me aceito. Em mais aspectos que eu mesmo imagino (parece que dia sim, dia não aparece algo novo ou algo anterior se reforça).

Não importa o quanto eu me sinta bem por 3, 4 dias, uma semana ou um pouco mais. Quando eu paro para encarar tudo isso, na terapia ou não, eu me dou conta de que eu estou apenas sobrevivendo.

E esse aqui, meu bem, não nasceu para apenas sobreviver. Ninguém nasceu.

Leitura recomendada (espanhol): “Responsabilidad afectiva” o acuerdos previos?, por Sabrina Aquino.

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Ensino, música, escrita, jogos, bissexualidade, idiomas e eternas viagens. Falo sobre tudo isso e também sobre transtornos psicológicos.

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Zoe Miranda

Ensino, música, escrita, jogos, bissexualidade, idiomas e eternas viagens. Falo sobre tudo isso e também sobre transtornos psicológicos.