Parando subitamente com remédios psiquiátricos

(Atenção: esse texto foi escrito antes da autora se descobrir uma pessoa trans não-binária. Portanto, a linguagem, termos e assuntos escolhidos podem não mais refletir a realidade da pessoa que escreveu. Para mais informações, leia o texto “Às vezes parece que é outra coisa, mas não é”: https://link.medium.com/9cZzyO8ow1)

“Mas não pode fazer isso, tem que acompanhar com o psiquiatra”

É claro que a gente sabe disso, bicho. Mas a vida neu

rodivergente não é um mar de rosas onde todo tratamento dá certo.

Existe muito neuro/psiqui lixo, que só quer saber de mandar aquele remédio (geralmente controlado) pra você comprar naquela farmácia específica (para ele ganhar o dele), e não tá nem aí pro progresso do teu caso.

E também existe médico top que quer te ajudar, e que recomenda terapia e que explica que remédio não vai te curar de nada (um muito bom já disse isso na minha cara).

Mas e quando não temos mais como fazer consulta? Quando os remédios estão causando lapsos de memória, a dose não está mais regulada, e você sente apatia, insegurança e vazio? O quanto os remédios podem estar causando isso? O quanto os remédios podem estar inibindo o que você sente?

Minha experiência é sobre tratamento para ansiedade / transtorno de ansiedade, com Carbonato de lítio 300 mg (3 vezes ao dia), Cloridato de Venlafaxina 75 mg (1 vez por manhã), Hemifumarato de quetiapina (antes 100 mg, agora 25 mg por noite, e como SOS de insônia: Alprazolam (antes 1,75mg, agora 1mg).

Carbolitium para estabilizar o humor, venlafaxina como ansiolítico/antidepressivo, quetiapina como antipsicótico/para relaxar o corpo e alprazolam como ansiolítico e para cair no sono.

Precisei me mudar de casa e consequentemente de clínica. A clínica antiga me deixava 4–5 horas esperando na fila e se tornou viável, felizmente (só que não) a nova começou a me deixar 6–7 horas na fila e desisti. Decidi que se precisar de psiquiatra, vou juntar dinheiro para fazer consulta particular (já que todos os particulares passam na frente de quem tem plano de clínica ou plano de saúde mesmo). O lance é que pouco a pouco os remédios foram acabando. Venlafaxina dá uns sintomas de abstinência bem semelhantes à ressaca. Quetiapina não notei muito além de ficar mais tempo acordado (ainda tomo alprazolam quando sinto necessidade, pois ainda tenho). E o carbolitium… bem…

Meu humor voltou a ser instável quando parei o carbolitium. Não que antes eu tivesse bem o tempo todo, mas agora eu oscilo entre “estou muito, muito mal e desesperado e não sei o que fazer” para uma crise de risos por causa de algum meme comum (e isso não é saudável. Rir desse jeito não é saudável).

Isso é um sintoma novo? Causado pela parada do remédio?

Não. Sentia isso tudo quando tomava outros remédios (Clobazam e Estazolam) ou antes de regular a dose dos novos, além dos lapsos de memória. No início do combo venlafaxina+alprazolam eu tinha fortes alucinações e conversava com espíritos (era aterrorizante na época, mas hoje em dia sinto saudades).

Mas indo ao ponto principal: por que parar com os remédios?

Não é uma onda good vibes de se curar somente com meditação, chás e vibrações positivas. Isso funciona para muitas gentes, assim como o sentimento chamado “fé” ajuda muitas outras pessoas, e assim como traçar metas de vida também funcionam, mas para mim não foi nada disso.

Eu estava inibido de sentir. Eu tinha sentimentos guardados e quando tentava senti-los, não conseguia, só sentia indiferença, vazio, uma extrema apatia.

Cortando os remédios, eu consegui voltar a chorar (eu achava que não conseguia por causa da fotossensibilidade, por meus olhos serem secos), consegui me permitir sentir muita coisa.

Mas parar sem um acompanhamento tem um preço.

Os sintomas que eu tinha voltaram todos de uma vez, me deixando instável, abalado e muitas vezes com dor de cabeça, tendo que deitar para dormir até passar a dor. Sinto medo de ir trabalhar assim, tão instável, pois não fiz isso ainda. Já tive crises no trabalho, na hora da saída ou o que fosse, mas não já sabendo que estou instável.

Existe medo. Mas parece que indo ao psiquiatra nada ia mudar, eu ia ficar refém dos mesmos remédios para sempre. O processo de “desmame” é demorado e custoso financeiramente demais para mim. Os remédios me custavam grana, as consultas me custavam grana, a passagem pra ir, e o ânimo de vida para sair de casa e ir enfrentar horas de fila sozinho também não era dos maiores.

Felizmente estou trabalhando e posso conseguir juntar uma grana para pagar uma consulta particular em caso de emergência.

As pessoas costumam te falar para nunca parar os remédios por conta própria, mas nunca te explicam o por quê.

O que posso dizer é que é uma merda, é doloroso, é perigoso e é chato. Mas sinto muito mais esperança de melhorar e me livrar de certos comportamentos e confusões da mente de vez, com a ajuda da terapia.

De fato, não recomendo parar com os remédios sem ter auxílio de nenhum profissional de saúde (seja médico ou psicólogo). Se você parar, provavelmente vai sentir umas paradas que não vai saber como lidar, e confiar só em conselho de amigo / familiar é complicado. Pesquisa no Google só ajuda a lidar com os sintomas de abstinência mesmo, agora os sintomas do teu transtorno é outra história.

Psicólogo não receita remédio, mas pode te ajudar a lidar com a falta deles.

Abstinência é quase certa de que vai acontecer, principalmente para alguns dos remédios.

Ainda tomo alprazolam às vezes (não todo dia) por causa da insônia, ou agitação e falta de vontade de dormir cedo.

O lance é que eu sinto que continuar tomando os remédios é evitar voltar para uma época do passado.

Quando parei, senti que voltei para essa época.

Agora espero conseguir passar por ela e seguir em frente.

E eu vou conseguir.

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Ensino, música, escrita, jogos, bissexualidade, idiomas e eternas viagens. Falo sobre tudo isso e também sobre transtornos psicológicos.

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Zoe Miranda

Ensino, música, escrita, jogos, bissexualidade, idiomas e eternas viagens. Falo sobre tudo isso e também sobre transtornos psicológicos.