O que mais desaprendi?

(esse não é um texto com fins educativos ou informativos)

Acho que com tanto tempo sem escrever, desaprendi a escrever. Com tanto tempo sem estudar música, desaprendi muita coisa, estou enferrujada. O pouco de italiano e francês que aprendi no Duolingo então? Nem lembro mais. Acho que não sei mais fazer arroz também, faz muito tempo que não faço. Não sei mais me expressar bem, eu acho. Depois de tanto tempo sem conversar, sem me abrir, fugindo de pensar em qualquer coisa, jogando, estudando, me sobrecarregando para não ter que pensar, acho que não sei mais lidar com meus pensamentos.

Depois de tanto tempo sem terapia, acho que também não sei lidar com meus sentimentos mais uma vez. É tão complicado…

Um dos sintomas do Transtorno de Personalidade Borderline é uma tendência a ser dependente emocionalmente de alguém. Mesmo que eu tenha lutado muito contra isso, aconteceu, e acabou. Não que fosse diferente antes, mas eu continuo sem amizades próximas. Minhas interações são com minha mãe, colegas de trabalho e alunos. Raramente vejo gente. Quando vejo, é tudo muito complicado. Sempre tem um empecilho, um problema, uma divergência inaceitável, até uma força que parece afastar surge. Não consigo manter, sustentar. Novas amizades e relações parecem água que tento pegar com as mãos abertas.

Nem tudo é transtorno, é óbvio, tenho minha parcela de culpa, mas parece que nem quando faço tudo “certo” dá errado. Sempre surge algo. Como posso errar tanto, meu deus? Eu tento de novo. Acho que desaprendi a errar também. Não aceito errar. Quando erro, peço desculpas, mas tento nunca mais repetir o erro. É diferente de aprender com os erros, acho. É como se em vez de eu compreender os motivos pelos quais errei e tentar trabalhar no que me levou a cometer erros, eu simplesmente tratasse o erro como algo óbvio e estúpido que nunca nem deveria ter acontecido para início de conversa, e que só se eu fosse muito idiota de cometer o erro de novo, é obrigação não cometer, assim provarei para mim mesma e para outras pessoas que sou capaz de corrigir erros e aceitar quando estou errada.

Ledo engano.

Corrigir erros não é tudo. Reparar, consertar, solucionar, limpar a barra… seja qual for a nomenclatura, nem sempre vai ser o suficiente para as coisas voltarem a funcionar. Sentimentos mudam, ideias mudam, expectativas mudam. Eu não sei lidar com isso. Desaprendi a lidar com quando alguém muda comigo, e também com quando eu mudo com a pessoa. Como devo agir? Aceitar a mudança e fingir que nada aconteceu? Comunicar meu incômodo com a mudança? Também não dá certo. Comunicar meus incômodos em geral não dá certo, porque para o outro nunca vai ser apenas uma comunicação de um incômodo. É óbvio. Nem eu interpretaria só como isso. Se alguém me diz “sua voz é alta demais para meu ouvido” vou me sentir compelida a falar mais baixo na presença daquela pessoa, mesmo que ela expressamente solicite que eu não o faça. Talvez um dia eu passe a fazer isso naturalmente mas de início não vai ser. É talvez eu nunca faça isso naturalmente, não tenho como garantir nada.

Na minha cabeça, é difícil entender que outras pessoas também funcionem assim, também sejam tão complexas ou ainda mais. Idealmente, eu compartilharia o que me incomoda, a pessoa refletiria, teríamos um diálogo ela compartilharia o que a incomoda e eu refletiria. Mudaríamos nossos comportamentos aos poucos como nada mais que leves deslizes e… pronto, os problemas estariam resolvidos. Mas não é assim. Às vezes refletir não leva a querer mudar, às vezes só vemos que o problema não seja no que estamos fazendo, ou que até esteja, mas não estamos dispostos a mudar isso. Mecanismos de defesa se ativam, traumas retornam, medos e inseguranças (res)surgem. Tudo é difícil. Acho que desaprendi a lidar com o que é difícil. Minha paciência é minha resiliência parecem não estar mais por aqui. Desaprendi a exercitar a paciência. Estou guardando pro final, Pitty, mas está difícil.

Parece que tudo que aprendi com terapia, paciência, esforço e ajuda de medicamentos e pessoas incríveis ao meu redor durante alguns anos, após um período de muita instabilidade, irritabilidade e explosividade, eu estou desaprendendo. Mas em vez de voltar a ser explosiva, fico frustrada, nervosa, desesperada, com medo, e des esperançosa, odiando a mim mesma, querendo morrer e me entorpecer com calmantes ou algum remédio que me possam receitar para parar de pensar e sentir. Me pergunto se eu me aliviaria consumindo drogas ilícitas, mas continuo sem vontade. Até porque é fácil quem tem TPB/BPD de viciar nessas coisas. Acabo descontando na comida, em jogos, ou me matriculando em 4 faculdades diferentes além de cursos extras no mesmo semestre.

Desaprendi a pensar, a esperar, a sentir e a falar. Não sei o que mais desaprendi, mas tenho medo de ter desaprendido a recomeçar. Preciso de terapia, mas começar de novo, buscar um terapeuta que tenha horários disponíveis, mandar mensagem, marcar, começar do 0, explicar tudo de novo, desenvolver segurança para me abrir, contar minhas histórias meus medos, dúvidas, segredos, ódios, traumas, minha vida. Sinto muito desânimo. E o mesmo para buscar outro psiquiatra, já que não estou conseguindo contato com a minha para ajustar os remédios, não me respondem. Consegui forças para terminar um TCC de 30 páginas, mas não consigo para mandar uma mensagem para uma pessoa nova. Consegui forças para falar coisas que eu precisava falar, mas não consigo para fazer uma caminhada. Não interagir com pessoas me faz muito mal, e não consigo enxergar formas de sair disso sem me humilhar, sem cultivar amor próprio, sem mudar quem eu sou completamente e sem ir além do que me sinto segura para fazer.

Me vejo num beco sem entrada nem saída. Só um grande caminho de ida e volta onde sempre me deparo com o nada, não importa em que direção eu ande. Eu quero sair daqui. Urgentemente.

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Ensino, música, escrita, jogos, bissexualidade, idiomas e eternas viagens. Falo sobre tudo isso e também sobre transtornos psicológicos.

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Zoe Miranda

Ensino, música, escrita, jogos, bissexualidade, idiomas e eternas viagens. Falo sobre tudo isso e também sobre transtornos psicológicos.