Impostora

Por Zoe Miranda

Nada me faz acreditar em mim, nada que eu saiba parece me fazer acreditar que eu sou dona desse conhecimento, nenhuma verdade me faz acreditar que não estou mentindo.

Eu posso lecionar com a certeza de que o conteúdo que estou transmitindo é correto, mas acreditando que eu não sei o que estou falando.

Posso olhar as pessoas que amo nos olhos e dizer o “eu te amo” verdadeiro mais falso que existe, pois eu não vou acreditar, mesmo que eu saiba que é verdade.

Posso dizer que sou um ser humano, que o céu é azul, e que azul em inglês é blue. Se não houver algo externo no mesmo momento reforçando o que estou dizendo de maneira imediata, eu posso convencer, mas não vou acreditar.

A última coisa que acreditei quando eu disse foi quando percebi que gosto de sentir o gosto de café com leite na boca por um tempo após ter tomado e disse isso em voz alta para mim mesma. Isso já faz algumas semanas.

Ensinar sem material me faz sentir uma vigarista. Eu posso dizer os nomes e tipos de 600 pokémon se me perguntarem, mas se não sei os outros 300, não sei nada do que estou falando, é tudo mentira, chute, sem base.

Os conselhos que dou são meras invenções para as pessoas acharem que sou sábia.

E tudo que eu crio é só para receber elogios, esperando que um dia algum deles faça algum sentido além de elevar meu ego por alguns segundos. Parece que eu não sei nada.

Não sou professora, nem música, nem escritora, muito menos designer de jogos. Também não sou do RJ, nem sei nada sobre as coisas que supostamente gosto. Não sou o que sou ou o que acho que sou. Minha sexualidade e meu gênero nem existem. Eu não sou o que sou e não sei o que sei. Todos os dias.

Quando eu te digo que gosto de você, eu não minto, mas eu também não acredito.

Quando eu te beijo e te abraço, eu não me forço, mas eu também não queria. Você não é tão legal assim, mesmo que eu te ache a pessoa mais legal do mundo.

A percepção que tenho das pessoas e de mim são fortemente abaladas por esse sentimento. É como se eu fosse a pessoa mais falsa e mentirosa do mundo, mesmo que eu me esforce para ser espontânea e legítima.

Não acho que eu conte mentiras mais que uma ou duas vezes por semana, mas nenhuma verdade que eu diga parece ser válida. Nenhum sentimento que eu expresse parece ser natural, e nenhum conhecimento que eu domine parece ser o suficiente para eu abrir minha boca sobre ele.

Eu gaguejo se me pedem pra falar, eu desvio se me pedem pra ensinar. Quem sabe é ele, é ela, é o outro, é o livro, não eu. Nunca eu.

Até isso tudo eu só escrevo para ouvir “que é isso? Você é tão inteligente, você até fez aquilo aquele dia”. Só quero mais fama, atenção, reconhecimento, visibilidade. Que falem de mim, que me digam o que faço bem. Porque esse deve ser o único motivo de eu escrever um texto assim, não por perceber que é uma situação constantemente desesperadora e frustrante, mas por mera vaidade e falsidade, que são as únicas características que consigo ter.

Ensino, música, escrita, jogos, bissexualidade, idiomas e eternas viagens. Falo sobre tudo isso e também sobre transtornos psicológicos.

Love podcasts or audiobooks? Learn on the go with our new app.

Get the Medium app

A button that says 'Download on the App Store', and if clicked it will lead you to the iOS App store
A button that says 'Get it on, Google Play', and if clicked it will lead you to the Google Play store
Zoe Miranda

Ensino, música, escrita, jogos, bissexualidade, idiomas e eternas viagens. Falo sobre tudo isso e também sobre transtornos psicológicos.