Expressar o que se sente pode causar luto, por isso evitamos tanto

(Atenção: esse texto foi escrito antes da autora se descobrir uma pessoa trans não-binária. Portanto, a linguagem, termos e assuntos escolhidos podem não mais refletir a realidade da pessoa que escreveu. Para mais informações, leia o texto “Às vezes parece que é outra coisa, mas não é”: https://link.medium.com/9cZzyO8ow1)

Desentendimentos, culpa, mentiras, autossabotagem e um silêncio doloroso. Fazemos de tudo com o que não sabemos lidar dentro de nós, menos tentar lidar com isso.

Expressar-se muitas vezes é mudar, é demonstrar uma mudança que já ocorreu, é quebrar o vidro de emergência, é sair do armário, quebrar a ilusão do que você era antes, arrancar as máscaras. É chegar em casa, tirar a maquiagem e encarar quem você realmente é. E quando você tenta esconder isso, é nesse momento que você sofre.

Ser sincero consigo e com as pessoas necessárias nunca parece ser simples para quem tem a autoestima baixa. A ansiedade bate no teto, a gente se arranha, às vezes literalmente. É frustrante, agoniante. Não é quem somos ou quem queremos ser. Nós somos aqueles que os outros enxergam. Algo além disso seria caótico, e certamente não é isso que queremos.

Relacionamentos abusivos se criam, comportamentos destrutivos nos consomem, e a imagem da qual não queremos nos livrar acaba se tornando a mais filha da puta das nossas inimigas: não tem como bater nelas sem nos machucarmos… Não tem como matá-la sem morrermos. E assim nos entregamos ao destino: “Seja o que for que queiram de nós vai ser, não podemos escolher”. Então, esquecemos que podemos mudar.

O orgulho, a irredutibilidade, o medo e a insegurança nos impedem. “Como minha família iria enxergar isso? Minha avó nunca entenderia", “meus amigos não têm nada a ver com isso, eu me sentiria muito só", “eu não conheço ninguém que seja assim ou sinta isso", “aquela pessoa nunca entenderia, chego a ficar com preguiça”, “ninguém aprovaria”.

O luto é pelos sentimentos que morreram até chegarmos ao momento de desabafar, de deixar as lágrimas saírem e mergulhar em todo aquele caos que estava somente em nossas cabeças. E pronto.

Acabamos de deixar de ser quem éramos, magoamos quem não queríamos magoar, nos afastamos de quem amávanos, quem achamos que nunca seríamos capazes de deixar. E foi exatamente esse ‘nunca deixar' que fez ser tão doloroso. Não aceitar que faz mal e fingir que está tudo bem é uma maldição que nós colocamos em nossas próprias vidas.

Acabar com a paz, com a estabilidade, correr o risco, enfrentar a voz mais alta, agir com grosseria, ser cruel, machucar psicologicamente, nos ignorarem, ridicularizam, rirem, zoarem e julgare… Não queremos que isso aconteça, mas fugir dessa realidade para sempre só resulta no nosso próprio isolamento de nós mesmos. O piloto automático é ligado e nos esquecemos do que realmente acreditamos, do que realmente sentimos.

O luto é por quem costumávamos ser, essa parte de nós que já morreu, das situações que vivíamos graças a esse pedaço nosso que não queremos cortar, e continuamos exibindo, às vezes com um sorriso no rosto.

--

--

Ensino, música, escrita, jogos, bissexualidade, idiomas e eternas viagens. Falo sobre tudo isso e também sobre transtornos psicológicos.

Love podcasts or audiobooks? Learn on the go with our new app.

Get the Medium app

A button that says 'Download on the App Store', and if clicked it will lead you to the iOS App store
A button that says 'Get it on, Google Play', and if clicked it will lead you to the Google Play store
Zoe Miranda

Ensino, música, escrita, jogos, bissexualidade, idiomas e eternas viagens. Falo sobre tudo isso e também sobre transtornos psicológicos.