Depoimento para a página Bissexuais BR (11/setembro) — Mês da visibilidade bissexual

Bissexuais BR — Mês da visibilidade bissexual!
Dia 11 (leia também na postagem original)

Zero/Zoe Miranda — Queimados-RJ (pronomes neutros ou femininos)

Depoimento: “Algo que eu trago da minha infância é o segredo. Omitindo, escondendo, ocultando, limpando rastros: assim eu cresci. Mesmo sem saber o que eu era, eu sabia que eu não era parte do todo, da maioria, do “normal”, e se descobrissem que eu não gostava somente de meninas, minha vida poderia estar em risco. Ao mesmo tempo em que eu tentava me entender, eu não podia deixar ninguém mais me entender, e a solidão me levou a explorar a internet em busca de autocompreensão.

Na época, em comunidades do Orkut, no bate papo uol, Omegle, em jogos online, em fóruns em inglês… Tudo em navegação privada, apagando históricos, imagens, limpando dados mais de uma vez para garantir. Só assim eu teria segurança, só assim eu poderia garantir não perder o amor da minha família. Cada volta da escola, cada “em casa conversamos” era uma parada cardiorrespiratória, um desespero, e cada comentário preconceituoso que eu ouvia, cada “viado!” xingando pessoas me fazia me esconder mais.

Lá pros 18, quando eu já havia entendido que o meu looping de “sou hétero? não. sou gay? não” era bissexualidade e já havia conseguido compartilhar com os melhores amigos e umas 3 pessoas da família, eu comecei a deixar transparecer para familiares via Facebook, com posts, memes, frases, filtros, fotos, textos, músicas e declarações. Finalmente conseguir contar à minha irmã (de quem eu mais escondi a vida inteira) foi um ponto alto, mesmo que o momento inicial tenha sido um pouco estressante para mim.

Atualmente, aos 22, mesmo já compreendendo melhor como funciona a minha sexualidade como um espectro, com fluidez, entendendo que não sou um homem cisgênero e conseguindo falar de tudo isso para quase todo mundo, eu ainda guardo muito da mania de segredo da infância. Unindo baixa autoestima e bifobia internalizada, o costume de limpar o histórico permanece e sinto medo de alunos tentarem me ridicularizar se ficarem sabendo (mesmo meu Facebook deixando isso claro).

Comentários bifóbicos vindo de pessoas que não conheço dificilmente me atingem atualmente, considerando que já sofri preconceito vindo de pessoas que acreditam que bissexualidade não existe, ou que acredita que existe, mas acha que é sinônimo de tudo que há de ruim. E vindo da família simplesmente não existe mais. Eu não consigo manter contato com pessoas que me fazem mal, sejam elas quem forem. E infelizmente não são apenas pessoas cis e hétero que podem ser bifóbicas, muito pelo contrário.

A ascensão do bolsonarismo me fez voltar a ter medo ao me expor em público. Considerando que minha leitura social (ainda) é de um homem (e também considerando meu atual estado de saúde mental instável e com a autoestima lá embaixo), demonstrar carinho com homens em público, até mesmo com meu namorado, me faz sentir uma tensão e um medo de sofrer um golpe na cabeça a qualquer momento. E gostaria que espaços LGBTI+ me oferecessem segurança também, mas quando estou rodeada de homens cis gays, tenho medo de falar de atração por mulheres ou pessoas não-binárias, visto que o que mais costuma acontecer é debocharem ou fazerem comentários misóginos.

O que guardo de bom de tanto tempo de militância bissexual são as amizades incríveis que fiz, o quanto aprendi sobre mim mesma e sobre vivências de pessoas bissexuais. Luto pelo reconhecimento da bifobia como opressão estrutural, pois políticas públicas, anúncios e textos sempre esquecem de mencioná-la (mesmo quando às vezes citam separadamente “homofobia, lesbofobia e transfobia”). Como pessoa trans não-binária, defendo a explicação de que a bissexualidade não é somente sobre homens e mulheres, e também que apesar de haver “bi” no nome, não precisa ser somente dois, e ao dizer isso reafirmo que para defender essa realidade (que não é apenas uma ideia), é preciso pensar em formas de não haver apagamento das identidades poli e pan. Brigo para que, antes de defendermos que pessoas bissexuais não são obrigatoriamente poliamoristas, devemos defender que não-monogamia não é algo ruim ou negativo. E em gancho com o que já citei anteriormente, acredito na união das orientações monodissidentes (bi, poli, pan, omni e outras), para que existe uma unicidade sem apagamento ou forçação de barra para nenhum dos lados (afinal bi tem mais visibilidade e as demais orientações acabam sendo tratadas como “variações” de bi).

Em conclusão, agradeço pela visibilidade que conseguimos atualmente, à minha história com o coletivo Bi-sides e com as pessoas maravilhosas que conheci lá, ao Nick Freitas, aqui do Rio, que me ajudou a conhecer ainda mais pessoas maravilhosas, a Roney Rodrigues e Vitor Rubião, que me ajudaram a compreender melhor minha sexualidade e a lutar politicamente por ela, e também agradeço a todas as pessoas que compraram meu livro (Nada Mudou) e que leram meus textos, afinal a maioria fala sobre minha trajetória pela bissexualidade. Ainda temos muitos estigmas e questões a enfrentar, mas com a rede de apoio que tenho atualmente, sinto que avançamos muito, muito mesmo, e me sinto muito bem com isso.”

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Ensino, música, escrita, jogos, bissexualidade, idiomas e eternas viagens. Falo sobre tudo isso e também sobre transtornos psicológicos.

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Zoe Miranda

Ensino, música, escrita, jogos, bissexualidade, idiomas e eternas viagens. Falo sobre tudo isso e também sobre transtornos psicológicos.