Mudanças são descobertas, não escolhas

(Atenção: esse texto foi escrito antes da autora se descobrir uma pessoa trans não-binária. Portanto, a linguagem, termos e assuntos escolhidos podem não mais refletir a realidade da pessoa que escreveu. Para mais informações, leia o texto “Às vezes parece que é outra coisa, mas não é”)

Como bissexual, tentei ser o limpo, monogâmico, romântico, que não tem indecisões ou confusões sobre sua sexualidade e seus desejos, não quer um ménage a trois ou se envolver com várias pessoas, e que é claro que pode viver a vida toda com uma pessoa só (ou para a sociedade bifóbica, “um gênero só”). Me descobri não-monogâmico.

Como não-monogâmico, tentei ser o não-mono legal, que pode tentar ter um relacionamento monogâmico, que respeita as “escolhas” das pessoas monogâmicas, não trai, não fica com gente comprometida, só quer o bem, amar e se apaixonar (não por muitas pessoas). Me descobri arromântico.

Como arromântico, tentei esconder, fingir que sou capaz de sustentar um relacionamento romântico sem ter dúvidas, medos, indecisões, culpas e que poderia lidar com isso naturalmente e que se algo desse errado, minha atração sexual seria o suficiente para manter a relação. Nisso os papéis de gênero presentes na relação me fizeram quase enlouquecer. Me descobri não-binário.

Como não-binário, estou tentando ser a pessoa legal que ninguém percebe que não é cis, que respeita as pessoas cis e suas dúvidas e ignorâncias. Tento ser a pessoa que não é complicada de entender, que não tem “muitos rótulos, termos, LGBTABCXYZ” (como bastante gente gosta de falar com orgulho, como se fosse a maior crítica social ligada a gênero e sexualidade que fosse possível). Tento não por minha identidade em pauta, por medo de ficarem questionando maliciosamente ou refutando inconvenientemente. Afinal, se é agênero, como pode ser homem? Como é bigênero se agênero não é gênero? O que é “homem"? Será que você não está só insatisfeito com seu papel como homem na sociedade?

Não sei por quanto tempo isso vai durar, e não sei o que vou me descobrir em seguida, se for. Lidar com pessoas só tem me feito pensar em morte, e fazia tempo que não me sentir assim.

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Ensino, música, escrita, jogos, bissexualidade, idiomas e eternas viagens. Falo sobre tudo isso e também sobre transtornos psicológicos.

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Zoe Miranda

Ensino, música, escrita, jogos, bissexualidade, idiomas e eternas viagens. Falo sobre tudo isso e também sobre transtornos psicológicos.