A raiva me domina, mas eu posso explicar

(Texto pessoal, sem fins explicativos/didáticos. Experiências completamente pessoais e que não necessariamente dizem respeito a quaisquer grupos dos quais eu faça parte)

— — —

(Texto escrito ao longo de vários dias diferentes, “hoje” pode se referir a mais de um dia dessa semana)

— — —

Me jogo, me solto, me perco na primeira oportunidade que vejo de discutir. E meu último ano tem sido totalmente sobre identificar, analisar e rever esse comportamento, mas infelizmente pelos motivos errados.

Não é saudável para mim reprimir todos os meus momentos de fúria e revolta contra outras pessoas tanto quanto não é saudável ceder a todos eles mas a primeira opção parece ser a única quando se tenta seguir o que terceiros têm a opinar sobre suas técnicas nada saudáveis de lidar sobre sua saúde mental.

Reprimir toda vontade de gritar e xingar alguém na internet pelo menos por um tempo para talvez chegar a quem sabe ser vista como alguém pelo menos minimamente pacífico me fez tão mal que quando voltei a me permitir ter pequenos e leves acessos de raiva em dias ruins, parecia que eu precisava de mais. Gritar mais vezes, xingar e discutir, caçar debates desregrados, encontrar inimigos e destruir. Exatamente o comportamento autodestrutivo que originou esses dois problemas: julgamento de terceiros e autorrepreção.

Assim, não é como se fosse um hobby para mim, brigar na internet para me afastar de pessoas. Não existe algo de produtivo ou prazeroso nisso para mim. Muitas das vezes (arriscando-me um pouco a me acusarem de usar transtornos psicológicos como desculpa para comportamento tóxico) não é voluntário. É impulsivo, impensado, “só vai”, é a minha reação imediata. Mesmo hoje, eu vejo alguém falando algo que considero idiota e minha primeira reação é querer responder, seja educadamente ou não. Só depois de sentir esse impulso, esse desejo imediato e repentino de participar de algo que pode vir a me desgastar emocionalmente é que eu paro e penso sobre a relevância do comentário ou postagem em questão, ou se vale a pena engajar em algo assim.

Como lidar com o desejo impulsivo de brigar e discutir online?

Uma das coisas que eu aprendi a me perguntar é “Eu realmente quero debater sobre isso?”. Diariamente somos bombardeados com todo tipo de informação em sequência no Facebook, no Twitter e no Whatsapp: política, humorística, sexual, religiosa, pessoal. Muitos temas nos pegam de surpresa, assim como opiniões de pessoas sobre esses temas. Pessoas são tão únicas quanto seus jeitos de expressar ideias, e nada pior que ver alguém expressando preconceituosamente o oposto de tudo aquilo pelo que você luta, do que a mesma pessoa fazendo isso sarcasticamente.

Algumas pessoas precisam de menos do que opressões e falas revoltantes para se estressar com outros na internet, e o problema nisso, além, é claro, do impacto na saúde mental da pessoa, é que nem sempre as formas de lidar com esse estresse e angústia são racionais ou justas com as pessoas com quem se está interagindo.

Hoje mesmo eu que me propus a discutir em um tweet sobre colocar número no Tinder ser uma péssima ideia porque pessoas estranhas/bizarras poderiam chegar até você com mais facilidade. E, alerta de spoiler, eu discordava (mais uma vez). O nível de irrelevância de uma pessoa não-famosa publicando isso em seu perfil pessoal e não causando dano a ninguém deveria ser o suficiente para eu só deixar pra lá, ou comentar descontraidamente um “sério, miga? Nem acho”, mas meu cérebro parece discordar. Eu queria discordar, debater, afrontar, derrubar, desacreditar, refutar, destruir. Todos esses sentimentos em poucos segundos, até o momento em que o fato de eu perceber que o tweet era de uma das pessoas que eu havia excluído do Facebook há umas semanas (por não ter mais proximidade ou motivos para manter uma amizade) me distraiu e eu optei por deixar para lá porque não fazia sentido eu fazer aquilo.

Essa é a minha forma de admitir que sim, eu não preciso de muito para a raiva começar a dominar meu corpo, mas também é o meu apelo desesperado por que percebam que eu sou um ser humano e me esforço diariamente para ser justa e racional, e não mereço que problemas ligados a raiva e reações exageradas potencializadas por problemas de saúde mental me definam. E mais do que isso, é meu próprio momento de meditação para pensar sobre mim e parar de supervalorizar o que outras pessoas têm a dizer enquanto negligencio minhas próprias ideias. Eu não quero mais usar a sua régua para medir contra o que é válido eu me revoltar porque eu não acho que ela seja justa, mas para superá-la eu preciso amadurecer e para me livrar dela, eu preciso trabalhar na minha autoestima.

O que fazer depois que sua imagem já foi deformada e você se tornou a pessoa raivosa e intolerante da qual às más vozes (na maioria das vezes, da sua cabeça) falam pelas costas?

Tanto quanto o isolamento, a raiva me tem feito muito mal nos últimos meses, mais do que outros problemas, como disforia de gênero e ansiedade social. O medo de acidentalmente gritar com quem se ama é sufocante, mesmo quando o grito seria uma frase em CAPS LOCK ou levantar a voz após receber a mesma pergunta repetidamente. E às vezes, quando você não sente liberdade para demonstrar a conhecidos que você explode com facilidade, você opta por fazer seu próprio showzinho particular, buscando palavras-chave problemáticas em algum grupo predominantemente povoado por reaças para denunciar comentários ao Facebook e talvez ter a sorte de conseguir fazer com que meia dúzia tenha que esperar um banimento acabar para voltarem a ser homofóbicos nessa rede (ou criarem outro perfil). Não resolve, é só como eu lido com as coisas.

Meditação, terapia, autocontrole, jogos de ação… Tirando os exercícios físicos, eu já pratico tudo isso. Mas odiar minha vida, mesmo que só às vezes, atrapalha bastante. Viver nos limites é demais pra mim. É como se eu fosse um daqueles balões de parques, que não param de subir se nada os parar, se ninguém os segurar. Sinto que, ao menos atualmente, meu natural é a raiva, a briga, o estresse, a explosão, a autodestruição, a sabotagem. E para evitar estar assim o tempo todo, eu trabalho muito para isso. Respirando fundo, refletindo, questionando, estudando sobre isso. Buscando entender as causas, tentando identificar o que é sintoma de depressão e o que é dificuldade de comunicação.

Mas às vezes é tão forte que até eu chego a me surpreender. Eu compus uma música para uma pessoa de quem eu senti raiva. Uma raiva causada por mágoa, ressentimento, decepção e tristeza, não por ódio e vontade de brigar. Parando para pensar, não creio essa raiva sequer é da pessoa, mas das situações. E aos meu próprios olhos eu poderia ver, contextualizadamente, que eu sentir raiva seria uma atitude infantil e uma prova de que todos (na minha cabeça) estão certos sobre quem eu sou. Mas eu, e somente eu, sei que isso não é verdade. E se eu não tenho como provar que não é, eu posso ao menos fazer diferente, e lidar com essa raiva de forma responsável. Portanto, eu consegui, não só para provar algo, parar a composição da música, desistir do plano de simplesmente jogar a música numa caixa de mensagem dizendo “pra você, leia por favor”, mas porque eu acredito na minha mudança, na paz e no diálogo, eu sempre acreditei. Nunca deixei de acreditar no diálogo. Mas eu me vi em desespero constante por bastante tempo, e hoje em dia só está menos frequente.

Eu tenho mágoa, muita mágoa. Ressentimento, tristeza, rancor. Uma pessoa cristã e/ou good vibes diria que eu tenho muito a perdoar. Mas é difícil até para mim mensurar tudo que passei. Eu sinto que tive uma vida normal, mesmo que cada terapeuta (uns mais que os outros) aponte, demonstre ou explique que passei por muitas situações difíceis e traumáticas, e eu simplesmente não consiga enxergar tão bem. Meu passado é um nevoeiro em minha mente, mas eu consigo me lembrar de algumas coisas, coisas da minha família mesmo. Eu lembro que já entraram no meu quarto enquanto eu dormia para tirar fotos minhas sem roupa e zombar do meu corpo quando eu era adolescente. Já me disseram “eu prefiro ter um filho gay do que um bandido, mas você não vai ser nenhum dos dois”. Já aceitaram uma cuidadora que forçava meu queixo para eu engolir comidas que eu não gostava, até eu vomitar… Simplesmente tratavam como normal, eu era a criança mimada e eu não podia reclamar. Já foram mais xingamentos e zombarias LGBTfóbicas na minha frente do que eu sou capaz de lembrar (antes e depois de saberem que eu sou bi). Já tentaram se reunir para me proibir de jogar o único jogo online onde eu tinha amigos que não faziam bullying diário comigo. Já me desestimularam e me coagiram a desistir da carreira musical porque “não é vida, não é o certo, é só um plano B”, medo quando eu estava em uma banda, recebendo cachê por shows. Nunca elogiaram qualquer um dos talentos que eu me esforcei para desenvolver, quem ia a apresentação de música, só se preocupava com a hora de ir embora. Durante férias na infância e pré-adolescência, colocavam marimbondos mortos em minha cueca e roupas enquanto eu dormia, por saberem que eu tinha pavor deles, por mera diversão, para depois zombarem da minha voz, do meu corpo ou de trejeitos femininos. Quando estava aprendendo a cozinhar, tudo era motivo de piada e zombaria, assim como erros que cometi por falta de conhecimento na infância ao tentar realizar diferentes tarefas simples.

Não sei se já disse isso nesse texto, mas tudo isso teve consequências em longo prazo em linha vida. Atualmente não consigo tentar cozinhar sem cair em choro e desespero com flashbacks de risadas e comentários negativos. Sinto desespero quando passo por qualquer situação que remeta a alguns dos episódios de erros na infância, que eram apresentados a cada pessoa nova que eu conhecia, sem me perguntar se eu queria. Chego a sentir paranoias quando tenho copos perto do teclado do computador. Tenho medo de experimentar coisas com meu cabelo, e quando tento, entro em pânico, me descontrolo e o destruo com uma uma tesoura. Prefiro gastar dinheiro ou ficar sem comida do que fazer miojo enquanto eu não estou passando mal de fome. Eu não consegui tocar num instrumento musical por ANOS depois de desistir de tocar, e eu amava a música mais do que tudo, mais que idiomas, escrita, videogames, ensino… Tudo.

E isso são só coisas ligadas às famílias. Nas escolas, uma diretora zombou de mim quando eu disse que estavam me machucando ao jogar canetas com força nas minha s costas, e depois disso, já que ela não fez nada, chamou meus responsáveis para conversar porque eu estava jogando canetas de volta. Já me perseguiram por todo o trajeto da escola até em casa (conferi no Google, meio quilômetro) jogando múltiplas pedras em mim ao mesmo tempo sem eu ter feito nada, só por “ser esquisito e gordo”, e eu tinha medo de contar a alguém da família, pois zombariam de mim também. Em cada escola, eu tinha um apelido diferente, e conforme eu fui crescendo, aos poucos foi mudando de coisas ligadas ao meu corpo para coisas ligadas a quem eu era ou a como eu agia, “esquisito”, “estranho”… E não era às vezes, essas palavras viravam meu nome, e até meus amigos me chamavam assim às vezes. Me xingavam e ameaçavam semanalmente e eu não sentia que tinha a quem recorrer, com professores incapacitados de fazer algo, com direções coniventes e sem eu sentir confiança para pedir ajuda a familiares na maior parte das vezes. Tudo era humor, parecia que minha vida era baseada em fazer pessoas rirem pelo quanto eu era uma pessoa ridícula e digna de riso. Em casa, na casa de familiares, na escola, na rua, nos cursos, e futuramente nos ambientes de trabalho.

Eu uso aba anônima no meu celular com medo de que alguém da minha família veja dúvidas bobas que eu pesquise e riam de mim. Eu tenho pesadelos com gente rindo de mim e de coisas que eu amo fazer.

E em todas essas situações eu senti que eu não tinha voz, que nada que eu dissesse importava. E eu sentia que só me ouviam quando eu me esgotava, me estressava e usava de agressividade. Quando eu socava o rosto de alguém que estava me perturbando (e machucando) continuamente mesmo que eu implorasse para parar, daí percebiam minha irritação, mesmo que brigassem comigo e falassem sobre o quanto estavam decepcionadas comigo. Quando eu gritava e respondia e falava palavrões para sentirem que eu estava sofrendo com aquilo, mas então me reprimiam e falavam em respeito e em tudo que iriam deixar de fazer por mim por eu me expressar. Falar e dialogar não adiantavam, radicaizar causava ALGUMA reação, eu era ouvida, notada, de uma forma ou de outra. Quando eu respondia uma zombaria com xingamentos pesados, com ataques pessoais, gritos e desobediência, a zombaria parava, a conversa mudava de tom. Isso não é adquirir maturidade, é sofrer por não ter ambiente para desenvolvê-la, é sofrer só, em silêncio. Viver num tudo ou nada. E futuramente, quando comecei a trabalhar, eu não podia agir da mesma forma para me comunicar. Não podia desobedecer, gritar, xingar, chorar, então só me restaram a falta de maturidade e todas as características dignas de riso, as pessoas do meu emprego me odiavam, ou ao menos eu sentia assim, com poucas eu mantive contato. Tudo que se faz contra outras pessoas, mesmo que em desespero ou despreparo, pode causar efeitos negativos nela, e eu tenho consciência de coisas que eu já fiz em momentos como esses, fizeram mal a outras pessoas também, não só a mim.

No emprego seguinte, quando comecei a encontrar um equilíbrio entre o tudo e o nada, não eram o suficiente, então me odiaram de novo. Parece que nada funciona, ainda tenho a aprender. Tudo que as outras pessoas talvez tenham aprendido crescendo, na infância, eu estou aprendendo, exercitando e solidificando agora, perto dos 23 anos de idade.

Por isso tudo, a primeira pessoa a quem eu mostrarei esse texto, vai ser você, a primeira pessoa que veio à minha cabeça quando minha terapeuta me perguntou quem são as pessoas de quem tenho mágoa. Não porque te odeie, ache você uma pessoa cruel ou que eu queira te provar algo. Mas porque é importante para mim que você entenda os motivos de eu ter mágoas, e que você entenda os motivos pelo qual o que você disse me machucou. É importante para mim, mesmo sem eu saber se é importante para você. Eu preciso que você saiba que pelo menos o que você falou parecia ser sério comigo, enquanto parecia ser brincadeira com outras pessoas. E mesmo que eu não tenha terminado a música que eu estava compondo para você, para finalmente me livrar de você em minha vida, e mesmo que eu não pretenda mais fazer isso, eu ainda preciso muito que você saiba o que eu sinto, pois você não saber me dói e me prende em um passado no qual eu não quero mais estar. Você não saber faz com que sua voz diga coisas em minha cabeça que eu não quero mais ouvir. Eu não quero competir ou brigar. Eu odeio brigar. Eu só busco paz, e eu preciso muito dela, e mesmo sem saber se essa é a melhor forma, é a que eu consigo fazer. Eu espero que você me entenda.

Obrigada. :|

Zoe Zero de Miranda Pereira

--

--

Ensino, música, escrita, jogos, bissexualidade, idiomas e eternas viagens. Falo sobre tudo isso e também sobre transtornos psicológicos.

Love podcasts or audiobooks? Learn on the go with our new app.

Get the Medium app

A button that says 'Download on the App Store', and if clicked it will lead you to the iOS App store
A button that says 'Get it on, Google Play', and if clicked it will lead you to the Google Play store
Zoe Miranda

Ensino, música, escrita, jogos, bissexualidade, idiomas e eternas viagens. Falo sobre tudo isso e também sobre transtornos psicológicos.