Às vezes parece que é outra coisa, mas não é

Texto com a intenção de narrar minha descoberta como pessoa trans (sim, trans de transgênero)

Não sei, talvez no começo de coisas novas tentemos assimilá-las a coisas que já conhecemos. Talvez seja algo comigo, por eu já conhecer coisas diferentes e achar que me conheço o suficiente para afirmar que algo x ou y não vai acontecer comigo.

Eu gostava de uma moça e de um rapaz, e achava que o fato de gostar dos dois ao mesmo tempo era meramente por causa da bissexualidade. Hoje em dia percebo que gosto de me relacionar com quantas pessoas eu quiser, e que é de um jeito diferente de quando uma pessoa está solteira. Sempre gostei de liberdade.

Mas pulando um pouco para sobre o que eu realmente quero falar nesse texto, preciso falar de um dia específico, o começo.

Não me lembro a data, nem o mês, nem tenho certeza se foi em 2018 ou 2017. Era noite ou madrugada, eu não tinha emprego, tinha trocado de remédios recentemente, então passava a maior parte do tempo dormindo, além de não sair de casa nunca por conta do pânico de ter sofrido uma ameaça de morte.

Eu estava assistindo How to get away with murder, e sentindo culpa porque as pessoas me recomendavam coisas legais, mas eu não as assistia. Já essa série, ninguém me recomendou diretamente, mas eu senti vontade de ver. Quando terminei de assistir o último episódio lançado na época, acho que parei de fazer tudo. Talvez eu estivesse mexendo no Facebook ou algo vago, só me lembro de estar na cadeira e de repente ficar ofegante, perder o ar. Pensei na hora “outra crise chegando", mas não era. Eu não mais me sentia mal, não estava triste, com raiva, nem sentia tudo vazio dentro de mim. Eu estava... feliz.

Continuei respirando agitadamente, meus batimentos mais rápidos, eu me apoiando na parede pra não cair da cadeira...

E foi isso.

Ao entender que eu não estava tendo uma crise, senti algo que nunca tinha sentido fora dos meus sonhos.

Para descrever bem, prefiro dar exatamente esse exemplo. Quando estamos sonhando, o nosso inconsciente está trabalhando constantemente para criar os ambientes, as cenas. E às vezes, como já deve ter acontecido a todo momento mundo, conseguimos perceber que estamos sonhando, e talvez mexer um pouquinho com os acontecimentos.

Houve um tempo em que, para auxiliar na escrita de um livro, eu estudei formas e técnicas de induzir essa lucidez nos sonhos. E quando se faz dessa forma e realmente acontece é uma sensação assustadoramente viva. Nossos olhos se abrem, as pupilas se dilatam e tudo ganha vida, brilho, uma nitidez berrante. A “qualidade da imagem" do sonho se torna outra e enxergamos tudo com clareza. “Puxa vida, então é assim que acontece... É assim que é… Tudo isso sempre esteve aqui e eu só precisava conhecer".

Naquela noite, sem estar dormindo, naquela cadeira, eu senti a mesma coisa. Parecia que antes daquilo eu estava inconsciente e as cenas e ações se criavam sozinhas. E a sensação de “despertar” não foi só em relação àquela noite… Parecia que eu havia passado a vida toda dormindo.

Passei o resto da noite pensando e pensando, e pesquisando sobre os pensamentos que eu tinha. Numa agitação intensa, nervosismo, sede de conhecimento.

O que era aquela aquilo que estava acontecendo comigo? Algum tipo de despertar espiritual? Um efeito colateral dos remédios?

Eu sentia que era capaz de qualquer coisa. E cheguei até a tentar coisas impossíveis em certos momentos.

Meus pensamentos pareciam seguir um caminho. Eu me perguntava por que as coisas são como elas são… quem definiu que as coisas deveriam ser assim, quem definiu que deveria haver leis… e assim fui indo, queimando todas as estruturas que conhecia em minha mente, seguindo um caminho de cada vez mais questionamentos, até chegar ao espaço, à possibilidade da existência de divindades, e finalmente ao sentido da vida.

Nesse momento senti uma dorzinha aguda na testa e então uma sensação de anestesia, quase que um orgasmo mental. Desde então minha vida nunca mais foi a mesma.

É claro, hoje em dia eu não fico pensando nessas coisas o tempo todo. E na época eu só conseguia pensar “caramba, então é por causa disso que existe o esteriótipo de cientista/filósofo maluco em quadrinhos e filmes. Devem ter tido a mesma coisa". E no medo de acharem que eu estava de fato enlouquecendo (e de alguma forma possivelmente me impedirem de usufruir dessa nova sensação de conhecimento na minha cabeça), guardei para mim e me limitei a falar sobre isso somente na terapia.

Essa euforia de questionamentos causada pela minha primeira epifania durou meses, e às vezes ainda me pego focando demais em questões existenciais, mas nada comparado ao começo.

Mas aonde quero chegar com essa loucura toda?

Em meio aos sentimentos de “isso parece ser só imaturidade”, “isso é bobagem”, “isso não acontece com ninguém, então vão achar ridículo se eu falar disso”, um dos questionamentos que chegou a mim foi “eu sou cis?”.

Não é como se existisse um teste de farmácia que a gente faz para ver se dá positivo. Na minha mente, inicialmente, não fazia sentido. Por eu ser uma pessoa masculina e me sentir confortável com coisas… “de menino”. Foi o que pensei na época.

Uma pessoa cis é uma pessoa que não é trans. É uma mulher que foi designada mulher mesmo ao nascer (ou seja, nasceu, olharam, disseram “é menina!”, cresceu e é menina mesmo). Ou um homem que foi designado homem mesmo ao nascer (nasceu, disseram “é menino!”, cresceu e é menino mesmo). Esse útlimo, era o que eu acreditava ser meu caso, mas não é.

E eu demorei muito para chegar a essa conclusão. Por baixa autoestima e dificuldades na dicção, somados a toda a vida de familiares rindo de ideias e atitudes minhas durante a infância e a adolescência, eu sempre guardei as coisas para mim, e muitas, na verdade, eu sempre escondia coisas.

Questionar minha identidade de gênero não era algo que eu gostaria de fazer publicamente. Tanto não era, que até hoje não são todas as pessoas que eu conheço que sabem, e foi algo que demorei a começar a falar abertamente na internet, mesmo depois de me aceitar.

Os primeiros contatos que fiz com pessoas, também trans, fora desastrosos. Não consegui chegar a contar a uma amiga pois ela acreditou que eu a estava tentando silenciar quando eu dizia que me sentia desconfortável com piadas me chamando de homem cis. Uma outra pessoa me disse que “achava estranho eu dizer que não sou cis sendo que sou homem”. E outras me disseram variações como “que bom que você não é um homem cis fingindo ser trans para fugir de seus privilégios” (???).

Um nome veio até a minha mente, criei um perfil secundário no Facebook. mas algo não estava certo, a vida não estava legal.

Nesse perfil eu depositava meus lamúrios, súplicas suicidas e narrava minha descoberta como pessoa trans para uma dúzia de pessoas. Aos poucos, cada dia mais, fui solidificando em minha mente a percepção de que sou uma pessoa não-binária, e que isso significa que eu sou uma pessoa trans.

Não sou um homem, não sou uma pessoa cis, meu nome não é aquele com F que você provavelmente conhece, e eu não espero uma confirmação de outrem para poder dizer que sou assim.

Terapia, gênero e o medo de não me respeitarem

Não foi fácil chegar a esse tema na terapia. Eu não sentia confiança para falar abertamente sobre isso com a terapeuta com quem eu me consultava na época em que descobri ser trans. No início, eu só estava tentando me entender, mas não conseguia falar sobre o quê. Trabalhávamos nisso de forma indireta, e quando chegávamos a esse ponto, eu sempre ficava em silêncio por longos minutos. Até que um dia foram quase 40 minutos de silêncio, e não poderiam ter sido mais produtivos.

Mais uma vez, eu sinto insegurança e vergonha em falar sobre isso, assim como outras coisas que já mencionei nesse texto. Mas eu vi algo dentro de mim. Uma figura feminina. Era como se fosse eu dentro de mim. Uma segunda mente, um outro ser, dentro do mesmo corpo.

Ver isso mudou muito a visão que eu tenho sobre mim.

Até então, eu acreditava ser uma pessoa agênero, sem gênero, sem lados, e acreditava inclusive na inexistência de gêneros, e que todas as divisões existentes nas sociedades ao redor do mundo eram ilusões. Ainda acredito que gênero é mera construção social (mas diferentemente de “feministas” radicais, não me apego à ideia de sexo biológico, e entendo que pessoas trans são as mais afetadas negativamente por opressão de gênero), e que as pessoas nunca deveriam ter sido divididas por gêneros.

Depois disso, percebi algo feminino dentro de mim. E não falo de feminilidade, pois certamente não é isso. Eu não me expresso de forma feminina, não sinto vontade de expressar feminilidade, nem de usar batons, esmaltes ou saias. Assim como também acredito que esses esteriótipos também deveriam ser quebrados, e não somente as vidas de pessoas trans seriam aliviadas. Mas eu percebi que uma parte significante dentro de mim é feminina. E ao falar isso, eu imagino pessoas transfóbicas me usando como exemplo de “homem que diz que ser mulher é um sentimento”. Imagino pessoas falando de mim como “ele se identifica como mulher” e outras coisas do tipo.

Não é fácil escrever um texto assim e manter o foco, são muitas questões correlacionadas.

Ao descobrir fazer parte do lado feminino do espectro de gênero, acabei terminando meu relacionamento com uma pessoa que não se atrai por mulheres. Ainda nos gostamos e temos uma boa amizade. E infelizmente só resolvemos essa questão depois de eu já ter terminado, mas ambes entendemos que foi a decisão mais apropriada para o momento. Elu já sabia da minha não-binariedade e me respeitava e me ajudava. Tivermos um relacionamento lindo e saudável, e fico muito feliz por isso ter acontecido. Namorar Vitor Rubião Vieira foi uma das melhores coisas que me aconteceu. E felizmente elu não foi a única pessoa a me respeitar.

Tudo na minha vida mudou quando eu conheci uma outra pessoa. Ele, que viu algo positivo na minha não-binariedade, e que gostou de mim assim, me respeitou assim, e, com o tempo, me amou assim.

Com Luiz, meu namorado (sim, eu continuo sendo uma pessoa bissexual), eu, aos poucos, consegui me sentir mais segura comigo mesma. Consegui experimentar diferentes pronomes, nomes e formas de tratamento. Consegui ser respeitada, e isso me ajudou MUITO a sair de uma época de intensa ideação suicida, cada dia mais perto de executar um plano.

Eu comecei a me enxergar como ser humano digno de respeito, comecei a respeitar minhas próprias confusões, indecisões e meus momentos onde nada em minha cabeça fazia sentido, e eu não sabia quem ou o que eu era.

Entre crises existenciais, abandono de terapia e afastamento de amizades, eu cheguei a quem eu sou hoje, mas não significa que as coisas estão fáceis.

O que é uma pessoa não-binária?

Não é exatamente simples de se explicar, ainda mais quando existe o peso de “falar por todas as outras pessoas que também são assim”.

Se você pesquisar ou perguntar a alguém, provavelmente vão te dizer

Uma pessoa não-binária é alguém que não é 100% homem nem 100% mulher.

Eu não sei te explicar em palavras como eu não sou um homem apesar do meu corpo. Eu tenho as minhas ideias em minha cabeça, mas não é simples expressar isso em palavras. Ainda assim, eu vou tentar.

Quando eu me olho no espelho, na maioria das vezes, eu não vejo um homem. É sério. Parece loucura para quem me conhece faz tempo, mas eu raramente vejo. (e minha vista está muito bem, obrigada)

Quando minha barba cresce, eu sinto que mais pessoas vão me ver como um homem, másculo, cis. E isso me incomoda, me dá medo, e faz eu sentir vontade de tirar a minha barba. Em casos extremos, eu já arranhei todo o meu rosto ao perceber que minha barba estava grande demais novamente, e que não havia nada que eu pudesse fazer para evitar que isso parasse de acontecer. O que senti para fazer isso é o que chamamos de disforia de gênero.

Quando me chamam pelo meu nome de registro/nascimento, na maioria das vezes eu sinto que estão de outra pessoa, de alguém que ainda existe, ou de alguém que eu não sou mais.

Quando falam de mim usando “ele”, “dele”, “esse menino”, “o moço”, “o rapaz”, “o professor”, “rapaz”, “cara”, eu sinto uma mistura de sentimentos. Desânimo, tristeza, medo, insegurança, disforia, desapontamento, cansaço, preguiça. E em casos extremos/repetitivos/de onde eu não possa sair, sinto dor de cabeça, estresse e vontade de morrer/desaparecer.

Quando falam comigo sem usar marcações de gênero (o, fulano, ele, professor, his, rapaz… Nada disso), eu me sinto bem, apesar de eu sentir um medo constante de falarem no masculino em algum momento, por me verem como homem.

Quando falam comigo usando neolinguagem (elu, bonite, professore, amigue, etc.), eu também me sinto bem, porque entendo que a pessoa respeita minha não-binariedade, mas costumo sentir que a pessoa está sendo artificial ou debochada, e que longe de mim ela me chama no masculino (o que provavelmente é um problema de autoestima meu).

Quando me chamam no feminino. É quase certeiro de que eu vou me sentir bem e confortável. Em alguns raros momentos, eu também sinto que a pessoa está sendo artificial ou debochada. Mas em geral, eu me sinto respeitada, sinto que a pessoa me entende, me ajuda e gosta de mim de verdade. Sinto gratidão, euforia e carinho. É como se finalmente eu pudesse relaxar, como se alguém me abraçasse e me dissesse que eu não preciso mais passar por tudo de ruim que eu passo diariamente.

“Como você se refere a si? Como se identifica? E hormônios, cirurgia?”

Eu uso pronomes de forma alternada/fluida, isso significa que muitas vezes eu digo que estou cansada, às vezes digo que estou cansade, e em alguns raros e específicos dias, me sinto bem dizendo que estou cansado.

Entretanto, após algum tempo experimentando isso com minha rede poliamorosa e com amigos, percebi que apesar de eu às vezes me sentir à vontade falando de mim no masculino, eu não me sinto bem quando falam de mim no masculino. E as pessoas mais próximas de mim respeitaram isso.

(posteriormente vi a bio do Twitter do meu amigo Akira dizendo algo tipo “eu posso me chamar no feminino, você não”, e achei genial)

Eu sou uma pessoa não-binária, e evito dar muitas explicações além disso, por diversos motivos:

  • As pessoas começam a dizer que são rótulos demais para aprender, e eu não tenho mais paciência para lidar com esse discurso
  • Dizer que sou “uma mulher trans não-binária” causa perguntas como “como é mulher se é não-binária?” e é difícil minha autoestima me permitir dizer que sou uma mulher considerando a minha aparência e meu jeito masculino.
  • Dizer que sou gênero fluido parece fazer com que as pessoas se sintam à vontade de dizer que “tem dia em que sou homem tem dia em que sou mulher", quando não é assim que acontece comigo.
  • Dizer que sou agênero implica em perguntas como “como é gênero fluido se é sem gênero?”, “como é agênero e mulher ao mesmo tempo?” e mais um loop de “quanta coisa, não to entendendo nada”.
  • Dizer que sou trans leva a questões como “mas você é home ou mulher trans?”, “você é operada?”, “mas você tem barba!”(???), “você tem piupiu um piriquita?” (versão family-friendly dos termos), fora as pessoas que acham que têm o direito de dizer, sugerir ou questionar se sou trans de verdade.

Mas, coincidentemente, todas as hipóteses acima são reais. E não me perguntem como ou por quê. Por favor, obrigada.

Os únicos momentos da minha vida em que penso em buscar tratamento hormonal são: 1- quando a disforia por causa barba chega a níveis exorbitantes. 2- quando minha voz grossa passa a me incomodar muito e afetar minha autoestima.

Curiosidade: faz meses que eu não entro mais em chat de voz de jogos online porque vão entender que sou um homem. Eu gosto muito de falar enquanto jogo, e fico mal por causa disso, mas o medo de ser ridicularizada ou xingada é maior. Também evito muito usar banheiros públicos compartilhados com sinalizações de masculino/feminino, mesmo quando estou com vontade.

Voltando ao assunto, não sinto vontade sólida de me hormonizar. Não tenho como controlar o que mudaria e apesar de eu não ter muito contra seios e algumas outras consequências específicas de usar hormônios “femininos”, eu tenho algumas dezenas de motivos pessoais para não querer outras consequências.

Não sinto vontade de fazer cirurgia de remoção peniana. Confesso que já fantasiei e imaginei coisas ligadas a ter nascido com vagina e útero, mas não quero mudar meus genitais, e meu pênis raramente me causa disforia.

Eu tento lidar com minha disforia, e não creio que, no meu caso, eu deva buscar hormonização ou mudanças corporais além de fazer a barba (talvez a laser em breve), tentar penteados diferentes e fazer exercícios para “afinar” a voz. Gostaria que fosse fácil para mim, pessoa AMAB (assigned male at birth / designada homem ao nascer) adquirir uma aparência/expressão neutra/andrógina, assim como é para algumas pessoas AFAB (assigned female at birth / designada mulher ao nascer).

Também acredito que as pessoas não precisam sentir incômodos para serem trans, e que precisamos de termos para falar de diferente tipos de corpo sem ter que usar temos em inglês ou “sexo masculino/feminino”, visto que isso acaba sendo problemático ao se referir a pessoas trans.

E o nome nos documentos?

Estou há dias…? Semanas! Talvez mais de um mês? querendo incluir meu nome social em minha carteira de identidade e em outros documentos, porém isso é difícil por alguns fatores:

  • Minha depressão dificulta MUITO que eu tome iniciativa para muitas coisas. Essa é uma delas.
  • Eu não tenho certeza se vou querer esses nomes (Zoe / Zero) para sempre, e tenho medo de ter que passar por todo o processo de novo, e isso me trava.
  • Tenho medo de situações desconfortáveis causadas por um nome feminino com “aparência masculina", afinal as pessoas ainda me leem socialmente como homem.
  • Tenho pavor disso de alguma forma chegar ao conhecimento de meus alunos. Em sala de aula, ouço durante conversas alunos fazendo comentários preconceituosos, e tenho medo em geral de me ridicularizarem em sala de aula. Eu já tinha muito medo e insegurança por ser abertamente bissexual, agora as coisas ficaram ainda mais intensas.
  • Tenho medo de perder o emprego, de pessoas no meu ambiente de trabalho não me entenderem, de nada ser o suficiente para um dia em minha vida, seja onde ou como for, eu trabalhar com meu nome real e respeitarem minha minha linguagem corretamente.
  • Tenho medo de assinar ou fazer cadastros usando o nome social e isso gerar problemas e/ou denúncias de falsidade ideológica / fraude / estelionato.
  • O medo de me assumir me congela. Temo constantemente um dia acordar e descobrir não ser uma pessoa não-binária, ou mesmo uma pessoa trans, e vou ter envergonhado todas as pessoas trans que conheço, mentido e me tornado a prova viva de que “tudo isso é uma fase". Mesmo que cada dia mais seja evidente que isso não vai acontecer, e que se acontecer vai ser por eu me descobrir uma mulher trans binária, não um homem cis (e esse também é um medo meu). Pensar em mudar meu nome nos documentos me faz pensar nisso.
  • Não consigo decidir entre Zoe Zero, Zero Zoe ou só um dos dois. Só sei que Zero é meu nome artístico definitivo, mas ele não me contempla 100%.

De toda maneira, é difícil para mim quando me chamam no meu nome de registro. É desagradável e triste. É como se a época do bullying e apelidos ofensivos tivesse voltado em minha vida. E é ainda mas difícil quando alguém que me conhece e sabe que esse não é meu nome o utiliza. E mesmo quando a pessoa não sabe também é difícil. Imagine alguém que você gosta ou ama, e que também gosta de você e te ama e tem as melhores intenções do mundo ao falar com você… te chamando por aquilo que mais te faz mal, te adoecendo, causando ansiedade, choro, imsônia… sem nem perceber.

Eu gostaria de ter forças para explicar pessoalmente para todas as pessoas, mas eu não tenho. Eu apenas espero a pessoa ler ou perceber ou me perguntar sobre isso. Em outros casos, acabo buscando maneiras de me isolar para evitar mais desconforto e disforia.

É isso. Acho que consegui.

Eu não sei se tenho muito mais a dizer, mas se eu tiver eu volto aqui.

Só gostaria de ressaltar que eu continuo sendo a mesma pessoa, apesar de ter mudado bastante.

Eu não odeio ou sinto raiva de pessoas que me conhecem e me chamam no nome de registro. Eu não quero obrigar ninguém a respeitar meu nome ou meu gênero ou meus pronomes. Não quero forçar a barra para ninguém usar uma linguagem ou termos e nomes aos quais não estão acostumados.

Este texto é informativo / didático. E com conhecimento, cada um faz o que quer. Eu só agradecerei muito se você se esforçar para me respeitar e pelo menos não usar mais meu nome de registro, nem falar de mim no masculino, afinal nós já respeitamos a linguagem de todas as outras pessoas diariamente porque consideramos “o normal”, respeitamos apelidos, nomes artísticos e às vezes até pronomes diferentes...

Meu coraçãozinho quebrado agradece àqueles que o tentam fazer bem.

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Ensino, música, escrita, jogos, bissexualidade, idiomas e eternas viagens. Falo sobre tudo isso e também sobre transtornos psicológicos.

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Zoe Miranda

Ensino, música, escrita, jogos, bissexualidade, idiomas e eternas viagens. Falo sobre tudo isso e também sobre transtornos psicológicos.